Você me desconhece. Não me sabe vivo. Não me ouviu a morte. E não cruzou comigo. Não pode me chamar de amigo. Ou pensar-me inimigo. Não pode recordar-me em nada. Nem me caluniar de culpas. Ou glorificar-me a feitos. Em nada que o tem estou. Em nada que lhe jaz existo. Nada que você tem me deu cobiça. Em tudo, nada fiz ou sou. Eu não estou em nada. As coisas é que estão em mim. E só possuo a mim. Ausente em todos. Presente em nada. Nada do que fiz me denunciou. E nada fiz além de mim.

            Sempre me agarrei a mim e ao que sou. Sempre me reduzi a mim e onde estou. Sempre estive comigo além de mim mesmo. Sempre me encontrei sozinho junto de você. Sempre me encontrei comigo ao conhecer estranhos. Sempre me reencontrei comigo mesmo além de mim. Sempre me encontrei contigo dentro de mim mesmo. Nunca assassinei a mim dentro de ninguém. Nunca assassinei ninguém dentro de si mesmo. Sempre fiz viver a todos dentro de si mesmos. Sempre fiz viver a todos me doando todo. Sempre fiz viver a mim dentro de você. Sempre fiz viver você dentro de você. Sempre estarás comigo quando junto a ti. Sempre estarás em ti ao ajudares outrem. Pois ninguém defende a si contra ninguém: sempre iremos contra nós dentro de outro alguém. E tu encontrar-te-ás contigo ao conhecer estranhos. Pois o homem encontrará o homem sempre além do homem. (trecho da Obra: Transecrise)